26/12/08
Novo blog
29/11/08
O Escritor Imbecil mostra todo seu potencial. E diz: ‘A gente tem que ter consciência...’
Pois bem. Essas palavras, lidas ontem, me vieram à cabeça imediata, desesperada, virulenta, pejorativa e intolerantemente – assim, como que pedindo para que eu as gritasse na redação, as riscasse numa Nylon Magazine enquanto uma bicha louca aparasse as pontas de meus cabelos – quando li o que disse João Paulo Cuenca no Paiol Literário deste mês (grifos meus, mas claro que são bastante justos, vamos e venhamos):If I had not existed, someone else would have written me, Hemingway, Dostoyevsky, all of us. Proof of that is that there are about three candidates for the authorship of Shakespeare’s plays. But what is important is Hamlet and A Midsummer Night’s Dream, not who wrote them, but that somebody did. The artist is of no importance. Only what he creates is important, since there is nothing new to be said. Shakespeare, Balzac, Homer have all written about the same things, and if they had lived one thousand or two thousand years longer, the publishers wouldn’t have needed anyone since.
Ora, Cuenca, já existem, sim, não uma, mas várias revistas Caras de escritores: 80% das editoras brasileiras que publicam “novos autores” não passam disso. Os autores publicados por elas não escrevem senão de si para si e para dar um jeito de se acharem geniais. Eu já disse isso inúmeras vezes aqui, como neste post e em outros que não me ocorrem agora. E que espécie de imbecil diz ‘estou fazendo ironia’? O imbecil normal e rotineiro poderia dizer ‘estou sendo irônico’, ou ‘isso foi uma ironia’, sei lá – com a ressalva de que quem faz observações do tipo não consegue, de modo algum, ser irônico. Mas, repito: que espécie de imbecil diz que faz uma ironia? E há mais, há mais, senhores; vejam só:Seria importante que existisse uma revista Caras de escritores. Isso ia ajudar a vender livros. Imagine o repórter ali, e o Sérgio Sant’Anna bebendo um chope em um boteco em Laranjeiras. “Sérgio Sant’Anna relaxa numa tarde em Laranjeiras bebendo chope.” E a figura do Sérgio em meia página. Ou: “Fulano está saindo com Cicrana”. Todo um rolo – não que eu participe dessas coisas (risos). Mas há aquelas pessoas que se odeiam, que falam mal umas das outras, que trocam farpas. Acho que isso tudo tinha que ser mais explorado. Estou fazendo ironia, mas acho isso importante.
Que briga “a gente está perdendo”? A briga é sobretudo por audiência. Para deduzirmos isso, nem precisaríamos que Cuenca comparasse seu estrelismo ao de quem circula por ‘tevê’, ‘cinema’, ‘internet’ e ‘todo o resto’. E certamente Cuenca não é um dos que estão perdendo a briga, a não que ele queira se ver tão famoso quanto Vivi Fernandez e ir dar entrevistas no Superpop, onde trocará tabefes com algumas atrizes pornôs que dirão ‘eu dou melhor do que tu escreve, Zé Cueca!’A gente tem que ter consciência de que o público leitor é pequeno. Os escritores, hoje, têm uma função quase que de evangelizadores. Você tem que chegar aos lugares e falar sobre você e seus livros. E essa tem que ser uma atividade constante. Ocupar os jornais, a imprensa, a televisão, o cinema. Ocupar todos os espaços e brigar por isso, porque a gente está perdendo a briga. Para a tevê, para o cinema, para a internet e todo o resto.
27/11/08
A lucidez implacável
Enquanto não me recupero da preguiça de escrever para este blog, prossigo copiando o que publiquei por aí. Acima, trecho do que escrevi sobre o romance do Philip Roth no Rascunho deste mês. O link direto para o texto está aqui.Porque o que Zuckerman padece não é só um esgotamento das forças que orientam sua virilidade e tudo mais que cotidianamente lhe restitui sua condição de homem. Não é só a gradativa e implacável percepção de que a velhice é o amplo e cruelmente iluminado átrio da morte em que se adentra com dolorosa compreensão de si e do que se lhe passa, compreensão essa de que o momento do fenecimento absoluto - a morte - é de todo carente. Pois é necessário lembrar a breve passagem de Wittgenstein em que o péssimo filósofo da linguagem se faz certeiro observador do Homem, este ser que costumava lhe parecer estranho: "A morte não é um momento da vida. A morte não pode ser vivida". Zuckerman não é, em primeiro plano, um homem que em breve morrerá e que disso sabe. Não é alguém empenhado em chutar o pau da barraca da morte para ver se, afinal, ainda é possível sentir o rubro veludo da vida, porém o tateando de olhos cerrados, a fim de ludibriar-se sobre sua cor. Não é nada disso.
O principal aspecto de Fantasma sai de cena, aquele que o torna romance de primeira grandeza, é seu movimento entre os pólos das duas tenções que alimentam, respectivamente, a juventude e a senilidade: os pólos da dissolução e da concentração. Dedicar atenção ao que é secundário e nem mesmo esforçar-se para identificar o que seja o essencial, a fim de para ele voltar aquela atenção dissipada de forma imprudente - esse é o pólo da dissolução. Caracteriza-se pela pouca reflexão, pelo insuficiente acúmulo de experiências que permitam, via comparação, entrever uma hierarquia de ações e valores, restando claro quais são os que auxiliam a melhor viver. De outra ponta, o pólo da concentração é o lugar de onde o indivíduo se permite baixar o olhar à realidade em vôo rasante, porém sem pouso, mantendo-se a uma altura suficiente para que, à vista do primeiro indício de que algo poderá arrastar sua vontade do essencial para o secundário, retorne à altura na qual seu espírito é, mesmo que incompletamente, concentração.
Ora, nada é mais característico deste romance de Roth do que o desespero que, ocasionado pela irrupção do desejo de dissolução em um momento em que já se tem a alma habituada à concentração, se alastra em vertigem pela consciência de seu protagonista.
25/11/08
Mais tolices sobre Machado de Assis

22/11/08
A paixão disforme de Schumann

06/11/08
Singela homenagem às musas photoshópicas, p&b e cools de álbuns de orkut
Carvalho Júnior (1855-1879)
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
beleza de missal que o orkutismo*
hidrófobo apregoa em peças góticas,
escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
raquíticos abortos de lirismo,
sonhos de carne, compleições exóticas,
desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
de fina transparência dos cristais,
almas de santa e corpo de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
as belezas da forma, seus adornos,
a saúde, a matéria, a vida enfim.
* "romantismo"
29/10/08
Sobre o perigo de sentir-se inteligente no Brasil

26/10/08
‘La Dormeuse’
Quels secrets dans son coeur brûle ma jeune amie,
Âme par le doux masque aspirant une fleur?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie?
Souffle, songes, silence, invincible accalmie,
Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Canspirent sur le sein d’une telle ennemie.
Dormeuse, amas doré d’ombres et d’abandons,
Ton repos redoutable est chargé de tels dons,
Ô biche avec langueur longue auprès d’une grappe,
Que malgré l’âme absente, occupée aux enfers,
Ta forme au ventre pur qu’um bras fluide drape,
Veille; ta forme veille, et mês yeux son ouverts.
Logo da primeira vez que li La Dormeuse, tive a impressão de que se tratava de uma divagação sobre o tema de Sueño, pintado por Goya em 1880:

O poema é dedicado a Lucien Fabre, o que pouco me diz, e nada indica que algum quadro, esse ou um dos tantos de temática análoga, o tenha inspirado (conquanto, aliás, seja costumeira a Valéry a inflexão entre música e imagem). No entanto o fato é que, em meu caso, ele se tornou indissociável dessa referência.
Que verso sugere a imagem de Goya? Sobretudo o Dormeuse, amas doré d’ombre et d’abandons, que na tradução de Augusto de Campos se torna Dorme, dourada soma: sombras e abandonos. ‘Amas’ possui uma conotação de desordem que não se preserva no vocábulo ‘soma’. No quadro, esse agregado irregular, esse ‘amontoado’, é produto do desenho algo rude do romântico rude que foi Goya. E é precisamente a essa reunião algo ‘desordenada e dourada’ de luz, sombras e solidão que o poema me parece não cessar de aludir. Perceba-se também que o ‘doré’ é ainda eco dos segredos que abrem o poema, os da jovem amiga que os incandesce no peito. No quadro nada justifica a iluminação e as cores senão a sugestão, arbitrária, que Goya quis ali imprimir. Da mesma forma, a incandescência que Valéry testemunha advém do ‘calor ingênuo’ gerado a partir de fontes desconhecidas, mas que se pode supor serem encontradas pela ‘alma errante’ no ‘temível sono’.
Duvido que Valéry tenha mesmo pensado no quadro de Goya ou em qualquer outro. O que importa, claro, é que eu pensei.
16/10/08
“And all the summer through the water saunter”
Faço uma generalização algo suspeita para encontrar a base comum entre as vozes desses três poetas que, tão distintos, parecem partilhar de uma técnica que não se refere de imediato à musicalidade, mas à altura e à naturalidade do que escrevem. Eu a chamaria – não sem erguer as sobrancelhas – de sabedoria prática, e a caracterizaria como o casamento entre coloquialidade, claro endereçamento de para quem se fala e apelo à verdade do senso comum. Eis alguns exemplos.
*
Look, stranger, at this island now
The leaping light for your delight discovers,
Stand stable here
And silent be,
That through the channels of the ear
May wander like a river
The swaying sound of the sea. (…)
Far off like floating seeds the ships
Diverge on urgent voluntary errands;
And the full view
Indeed may enter
And move in memory as now these clouds do,
That pass the harbour mirror
And all the summer through the water saunter.
Eu não recordo meus versos favoritos de Auden como mensagens que me dizem coisa qualquer de sábia e que por isso me edifiquem, como poderia fazer com a quase totalidade da obra de Bruno Tolentino. Eu os recordo apenas como um estilo, na acepção mais vulgar da palavra, mais ou menos como um modo recomendável de se vestir as calças – um modo edificante. É essa maneira de voltar-se para o leitor e dizer-lhe Look, stranger... e recomendar-lhe Stand stable here, / And silent be... É essa maneira de dizer-lhe que o verão inteiro vagueia pelo mar. Auden nos ensinar a escolher as gravatas que melhor se adequam a nossas almas, conquanto descuida ante a flacidez dos bíceps dessa últimas.
*
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray,
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Certamente Dylan Thomas é poeta “menor” se comparado a Auden, por mais que sutis oposições em sua poesia – como essa de em um momento descrever a morte como good night e, logo em seguida, como the dying of the light – lhe creditem uma posição nada ingênua em face da matéria viva do cotidiano. (Como citei acima o Tolentino, aproveito para me utilizar de sua distinção entre “grande poeta” e “poeta maior”: o primeiro é de fato o melhor, como Auden o é diante de Thomas; mas o segundo é de audácia expansiva, de pretensão mais ampla, como Thomas o é diante de Auden; ambos os tipos são igualmente importantes.)
O segundo e o terceiro versos acima são de um romantismo cristalino, o mais puro romantismo sem impostação que caracteriza toda, toda a poesia de Dylan Thomas, tal como no tão lembrado Though lovers be lost love shall not daquele seu famoso poema. O risco que se corre ao ler Thomas é o de você memorizar uma quantidade imensa de belos versos e depois não saber de que poemas os tirou, tão forte é, em um único verso, a coincidência do preciosismo musical com a elocução de coisas menores porém fortíssimas. Aliás, ‘coisas menores porém fortíssimas’ são as mais apropriadas ao tom do que chamei ‘sabedoria prática’.
*
I wonder about the trees.
Why do we wish to bear
Forever the noise of these
More than another noise
So close to our dwelling place? (…)
They are that that talks of going
But never gets ways;
And that talks no less for knowing,
As it grows wiser and older,
That now it means to stay. (…)
I shall set forth for somewhere,
I shall make the reckless choice
Some day when they are in voice
And tossing so as to scare
The white clouds over them on.
Não há poeta na América mais ‘conscientemente popular’ que Robert Frost. Basta a Frost um par de rimas e heptassílabos para que seja mais deliciosamente livre que um Whitman em qualquer um de seus versos livres, brancos e carregados de confusão entre liberdade e liberalidade. Repitam estes versos pausadamente, a exemplo: They are that that talks of going / But never gets away. Não há tom que se compare, e sua correspondência direta está em questionamentos ligeiros, amenos, como aquele sobre o porquê de preferirmos o barulho das árvores ao das demais coisas. Aí não vai conhecimento algum. O que vai é um modo muito confortável de erguer o queixo em direção às árvores e sentir-se muito bem ao fazer isso. É possível que amanhã eu apague esta frase, mas Frost é o poeta com maior capacidade de me convencer a ser feliz para sempre em uma fazenda cheia de vaquinhas.
09/10/08
Felicidade e crise financeira
Só após a leitura deste artigo, eu, o simplista, passei a ter uma opinião razoável sobre a crise financeira que, a esta altura, só os mais incautos ainda insistem em reportar à queda do império etc. Há gente debochando do liberalismo por conta da monstruosa verba pública que os EUA injetaram diretamente no bolso de burocratas e acionistas de competência duvidosa. Mas isso não é nada comparado à velocidade com que bancos europeus vão sendo privatizados. Quem, após a crise, irá querer comprá-los? Aliás, quais países irão querer devolvê-los? A onda de otimismo estatal será irrefreável. E é quanto a isso que o texto linkado pode nos orientar.
*
A Dinamarca possui o povo mais feliz do mundo. O que explica isso? Uma insondável, injustificada e dramática desconfiança em relação ao futuro. Os herdeiros de Hamlet têm a resoluta certeza de que as coisas não podem dar muito certo, de que algo fugirá às expectativas num sentido temeroso, de que os tempos passados só ensinam quão ruins podem ser os futuros. Só se é feliz quando não se espera muito do que virá. E, quando algo dá certo, é uma dádiva. É algo próximo da mensagem de incontáveis versos e parágrafos de Pessoa: se absolutamente conscientes de nossas percepções, se duros em nossa visada ao norte do tempo, não conseguiríamos sequer pôr uma cueca no varal; levar um cigarro à boca, por exemplo, seria uma atividade exaustivamente complicada. Relaxe, seja um homem comum, e talvez as coisas não fiquem tão feias.
*
Portanto a crise poderá arrebentar nossos bolsos, se arrebentar mesmo, mas nos dará algo maior, algo concreto, porque mais espiritual e em forma de uma pequena e desinteressada lição: não espere muito do futuro. Vamos torcer para não irmos para o inferno para que parcelas de paraíso, quando despencarem sobre nossas cabeças, produzam a doce e penetrante sensação de que tudo deveria estar exatamente onde está, tal como nossas cabeças estão sobre nossos ombros, este fato espantoso.
*
A crise nos fará mais felizes.
05/10/08
O Mal (em um conto de Flannery O’Connor)

“Sei que o senhor é um homem bom”, disse, desesperada. “Não é uma pessoa qualquer”.
“Não, dona, não sou bom não”, o Desajustado disse um segundo depois, como se houvesse refletido sobre o que ela tinha dito, “mas também não sou o pior do mundo. Meu pai dizia que eu era de outra raça, diferente dos meus irmãos e irmãs. Dizia que há pessoas capazes de passar a vida toda sem perguntar por quê, mas que outras têm de saber o porquê das coisas, e que eu era desse tipo e ia me meter em tudo”.
*
“O senhor também, se quisesse tentar, poderia ser honesto”, disse a avó. “Já pensou que maravilha seria fixar-se numa vida tranqüila, sem ter de pensar se há alguém a persegui-lo o tempo todo?”
O Desajustado pareceu refletir. Continuava rabiscando no chão, com o cabo da arma, e disse: “Tem sempre alguém atrás da gente”. (...)
“Jesus lhe ajudaria”, disse a velha senhora, “se o senhor rezasse”.
“Isso é verdade”, disse o Desajustado.
“Mas então por que não reza?”, perguntou ela, trêmula, num repentino deleite.
“Não quero ajuda”, disse ele. “Tenho me dado bem sozinho”.
*
“Jesus foi o único a ressuscitar dos mortos”, prosseguiu o Desajustado, “e ele não devia ter feito isso. Desequilibrou tudo. Se ele fazia o que dizia, não temos outra coisa a fazer a não ser renunciar a tudo e segui-lo. Mas, se não fazia, então o que nos cabe é desfrutar dos poucos minutos que nos restam da melhor maneira possível – matando alguém ou queimando a casa de alguém ou lhe fazendo alguma outra maldade. Sem maldade não há prazer”, disse ele, e sua voz era quase um rosnado.
“Vai ver que ele não ressuscitou dos mortos”, murmurou a velha senhora, já sem saber o que dizia e se sentindo tão tonta que arriou na vala, à medida que suas pernas foram se retorcendo.
“Se ele fez ou não fez, não sei, porque não estava lá”, disse o Desajustado. “E bem que eu gostaria de ter estado”, acrescentou, dando um soco no chão. “Não é justo ser assim, porque, se eu tivesse estado lá, eu saberia. Sabe de uma coisa, madame”, disse em voz alta: “Se eu tivesse estado lá, eu saberia, e não seria como sou agora”. Sua voz parecia a ponto de rachar, e a cabeça da avó clareou por um instante. Ela viu o rosto do homem contorcendo-se próximo ao dela, como se ele fosse chorar, e balbuciou: “Mas você é uma das minhas crianças, um dos meus filhinhos!”, esticando o braço para tocá-lo no ombro. O Desajustado deu um pulo para trás, como se uma cobra o picasse, e atirou três vezes nela, todas no peito. Depois botou a arma no chão, tirou os óculos e começou a limpá-los.
“Seria até uma boa mulher”, o Desajustado disse, “se a cada instante de sua
vida houvesse alguém nas cercanias para lhe dar um tiro”.
Emma Kirkby cantando 'When I am laid in earth' ('Dido and Aeneas'; Purcell)

Das sopranos inglesas, Emma Kirby é minha favorita, mesmo porque conheço outras poucas da terra de Shakespeare - país de tradição musical que sempre me pareceu monótona. Houve Händel, é claro. Mas me arrisco a dizer mais: não fosse a ascendência e o espírito inteiramente alemães deste, Henry Purcell lhe teria sido maior, o que minha ignorância permite que eu diga exatamente apesar da monstruosa incompletude de sua obra.
11/09/08
Em que tento dizer de uma vez por todas o que é má literatura
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E agora digo de uma vez por todas o que percebo como má literatura: é todo e qualquer tipo de ficção ou poesia que não seja realista.
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Mas não se trata de “realismo literário”. A questão é que, se um conto não me convence de que aquilo que nele se passa aconteceu tão paupavelmente quanto o estilhaçar de um copo acontece quando o atiro contra a parede, de forma alguma pode ser um bom conto.
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A coisa está, portanto, mais para “realismo simbólico”. Ou Philip Roth me faz crer que ele realmente começou, ainda criança, a se ver como judeu e a perceber que sua vida uma hora acabará quando seu primo Alvin, após lutar contra os nazistas, voltou para casa sem uma perna - mesmo que tudo isso seja mentira -, ou o que ele escreve me causa um desinteresse estupendo.
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Um exemplo extremo é o Ulysses. James Joyce não seria um gênio se, não só apesar, como também por conta do artificialismo radical de sua escrita, as histórias sobre Leopold Bloom não transmitissem uma impressão suficientemente vívida de que ele de fato aprecia órgãos de quadrúpedes enquanto põe leite no pires de sua gata próxima ao fogão.
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A ficção não pode ser de mentirinha.
02/09/08
Língua Frouxa
É curioso, portanto, que, embora a literatura portuguesa tenha nascido com um Camões a lhe ensinar a exata medida da duração de uma frase em relação a seu sentido, no último século ela tenha caído na mãos de escritores que, para ser razoável, não posso chamar de menos que repentistas de metáforas embasbacadas. Se, como pensava Jorge Luis Borges, as nações costumam escolher como seus representantes os escritores que menos as representam, como se suprissem uma falta, é lícito pensar que, cada vez mais (a julgar pelas últimas décadas e pela presente), Camões ocupará uma morada acima nas letras portuguesas. (...)
*
Inês Pedrosa não sabe exprimir o turbilhão emotivo de suas personagens sem recorrer a um rebaixamento papa-léguas da língua. Talvez o leitor ache que eu esteja levando a sério demais sua literatura ao fazer uma leitura tão ampla. Mas as coisas - este é o ponto crítico - ficam realmente sérias quando percebemos que Inês Pedrosa é só uma entre uma turminha de escritores de língua portuguesa que só sabem fazer isto: pensar errado em escrita frouxa. É preciso, pois, comparar não só a portuguesa Inês Pedrosa, mas também o moçambicano Mia Couto e o brasileiro Sérgio Sant'Anna, a exemplo, com um inglês como o Ian McEwan de Reparação. Sei que é covardia. É como pôr um grupo de pivetes a desafiar o King Kong. Isso, não obstante, não deixa de sugerir um remédio: o casto chicotinho da língua de Camões.
Clique aqui para ler eu descendo a ripa em Inês Pedrosa - e, por tabela, na literatura contemporânea de língua portuguesa - na revista Rascunho do mês passado.
28/08/08
Chapéu e Civilização
Nós brasileiros ficamos mais mal-educados depois de deixar de usar o chapéu. O chapéu nos dava a chance de erguê-lo pra cumprimentar alguém. Agora sem ele, só nos resta um Olá ou Oba. Oba é um som hostil, quase agressivo. Somos mais solitários porque não usamos chapéu!
Nelson Rodrigues
(Via Dessincronizado)