25/11/08

Mais tolices sobre Machado de Assis

Tal como o personagem machadiano que é seu objeto de estudo, Miguel Wisnik, em Machado Maxixe, pretendeu escrever sonatas – mas só conseguiu fazer polcas

Por Ronald Robson

(Publicado no jornal O Imparcial, 23/11/08)

Que se diga, desde logo: nenhum escritor brasileiro teve tantas tolices vazadas em seu nome quanto Machado de Assis. Desde o epíteto de “um mestre na periferia do capitalismo”, que Roberto Schwarz lhe atribuiu no famoso livro (1990) em que tenta “mostrar” que os romances de Machado detém uma “cristalização da ideologia de classes” brasileira, até chegar ao ponto cretino de afirmar que a fragmentação formal de Memórias Póstumas de Brás Cubas é reflexo do “vaivém ideológico da classe dirigente brasileira” (comparação análoga seria dizer que um triatleta, necessarimente, teria um texto “ligeiro”), vê-se um estonteante cortejo de asneiras. Trata-se apenas de cavalgar o escritor a fim de divulgar idéias daquele que analisa, não do analisado. A crítica sociológica que se erigiu em torno de Machado configura, geralmente, fraude intelectual.

Claro que, já bem antes de Schwarz, Antonio Candido, para me fiar a um só exemplo, dera contribuições grotescas nessa seara. No entanto, neste ano de centenário da morte de nosso maior escritor, chama atenção Machado Maxixe: o Caso Pestana (Publifolha, 2008, 96 págs.), de José Miguel Wisnik, que, respeitado articulista da Folha de São Paulo, se apresenta como caso quase clínico de crítico obstinadamente empenhado em não compreender nada da literatura de Machado de Assis. Aqui, é bom lembrar a distinção – genérica, mas ainda sensata – feita pelo crítico Antônio Carlos Secchin: a literatura brasileira divide-se entre os que querem explicar o Brasil (descendentes de José de Alencar) e os que querem se explicar, no Brasil – linhagem cujo patriarca é Machado. E Wisnik quer explicar a música brasileira a partir da obra de quem pouca bola dava para tais empenhos.


Miguel Wisnik estuda o conto Um Homem Célebre (do volume Várias Histórias, 1896), entre outros contos e crônicas (em segundo plano), com o intuito de apreender o desenvolvimento da música popular e urbana no Brasil. O argumento do primeiro conto, em resumo, é este: Pestana é um pianista, compositor com aspirações eruditas frustradas, e que também compõe polcas, gênero então recém importado; e o ponto crucial: torna-se famoso justamente através das polcas, e não por suas sonatas e sinfonias. Essa é a origem de seu tormento. Já o tormento do leitor só tem início em Machado Maxixe: Wisnik tenta, com pontapés subintelectualizados, fazer ver que este dilema irá perpassar toda a música brasileira (delineando a "dialética entre música popular e erudita"), e, em um delírio crítico, diz que a própria obra de Machado de Assis desenha um “complexo de Pestana” (pág. 20), à medida que estudaria essas relações. Mas não só em contos e romances.

Porque, escreve Wisnik, também a “crônica é a polca da literatura, assim como ‘a musa da crônica, vária e leve’, não está muito distante da musa da polca, ‘fácil e graciosa’” (pág. 29). O que leva o Sr. Winik a polcar essa crônica conclusão? Simplesmente o fato, tão natural a cronistas, de Machado ter abordado em seus textos de jornal um fenômeno social nascente: a difusão da polca e do maxixe, embora não nomeie este. E, porque Machado brincasse com os títulos burlescos dessas composições, a ponto de dizer que, uma hora, não haveria tema que não rendesse título de polca, Wisnik crê que “a crônica de Machado encena uma polquização geral do mundo, engolfando consigo todos os conteúdos e as formas” (pág. 28). É certo: a análise de Wisnik é uma verdadeira polca.

Há coisas em Machado Maxixe que fazem eu me perguntar se o autor acredita mesmo no que está escrevendo. A simples presença de um piano de sala em Um Homem Célebre, ao lado da obviedade de que o instrumento importado era coisa da moda européia, inclusive para tocar as polcas da moda brasileira, leva Wisnik a ver nele um índice do poder brasileiro de reformular, à sua maneira, aquilo que importa (o mito da antropofagia de Oswald de Andrade – sim, mito; pois que povo não toma para si e reformula elementos culturais de outros povos?). E escreve: “o instrumento já supõe, na origem importada, dois mundos musicais muito distantes entre si, que estamos vendo se cruzar aqui o tempo todo: o repertório de salão e o repertório de concerto”. Mas, como? O simples dado de se tratar de um piano indica que ele remeta ao “repertório de concerto”, embora nele se toque música popularesca? Deveria o Sr. Wisnik lembrar que, didático exemplo de fusão destes “dois mundos musicais”, nós encontramos é nos Choros de Villa-Lobos ou nas Polonesas de Frédéric Chopin, com as quais o piano de fato ascende ao mais alto nível de composição erudita, mas sem perder a referência popular.

Aliás, boa parte dos equívocos de Miguel Wisnik advém de propósitos politicamente corretos, a exemplo desse modismo de, à força, destruir o desnível entre baixa e alta cultura com a indistinção entre popular e erudito. Mas o Sr. Wisnik não sabe nem o que seja o “politicamente correto”. Escreve ele que a “antropologia politicamente correta” não estudou com rigor a fusão de ritmos brasileiros com europeus; e por “tabu”. E lasca a estrovenga: “Machado administra, pois, um tabu social e pessoal, cercando de silêncio, como sabemos, a sua condição de mulato” (pág. 38). Será que ainda não ocorreu a ninguém que Machado não tenha tratado de sua “condição de mulato” não por recalque, mas por simplesmente considerar isso pormenor autobiográfico, coisa ínfima para se retratar em sua literatura nada panfletária, sem “teorias do romance” e autovitimização? Aposto: tivesse Machado abordado a sua “condição de mulato” frontalmente, e hoje diriam serem pouco memoráveis os momentos em que o autor tivesse choramingado a opressão que o regime escravocrata lhe impunha... Isso, sim, teria sido politicamente correto. E teria sido abjeto.

Não dá para apresentar, aqui, todos os equívocos do livro, tão numerosos são. José Miguel Wisnik não possui o que José Veríssimo chamava “saber dos livros” (com o necessário respeito ao “universo do autor”) e nem mesmo o “saber da vida”. Pode ser que eu, com minha pouca idade, detenha pouco do primeiro e quase nada do segundo. Mas eis a diferença entre mim e outros humildes leitores que passam ao largo de toda pompa universitária – nós não nos pomos a escrever bobagens como este Machado Maxixe; apenas lemos Machado.

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